Maternidade real oficial

em 14 de Maio de 2017. Categoria: Sem categoria

Resumiram a maternidade em uma imagem plena e feliz: um bebê rosado e gordinho abocanhando perfeitamente um seio farto.
E quando você chegou no meu ventre, eu sonhadora fiquei ansiosa por tê-lo no colo pra fazermos essa fotografia.
Daí, me falaram que parir era difícil, mas, eu queria que acontecesse no tempo certo e decidi enfrentar meu medo. Mesmo com minha insistência você escolheu um parto cirúrgico depois de um dia inteiro tentando te expulsar. Eu percebi ali, que não estava no controle.
Menos de 24 horas depois de uma pessoa sair da minha barriga, eu estava de pé, tentando ser a mãe do comercial de dia das mães.
Meus seios enormes e rasgados não te serviram de alimento e pela primeira vez eu me senti cruelmente rejeitada.
Me disseram que uma fórmula artificial e cara ia substituir meu leite e eu soube que você era capaz de me trocar com muita facilidade.
Um dia, eu decidi tomar um banho e você me interrompeu aos berros. Ainda enrolada na toalha e suja de sangue, eu, também aos berros vi que eu precisava fazer você feliz, se eu quisesse ser feliz de fato.
O tempo passou e a gente começou a se entender. Nada da magia dos cinemas acontecia na nossa casa: era tentativa e erro. Nem por isso, deixava de ser bonito. Era lindo desvendar os seus desejos.

Ainda é.

Você fez um ano de idade e ganhou muitos brinquedos. Eu escondi eles de você e ia entregando gradativamente por que era lindo ver seus olhos eufóricos e curiosos em cima de cada pacote.

Eu esmagava sua sopa com um garfo. Não presta bater no liquidificador, eles disseram. Muitas vezes eu comi a sua sopa. Eu estava tão exausta e faminta que comia a sua sopa fria e babada depois dos inúmeros aviãozinhos.

Quando veio o segundo filho tive certeza que seria tudo mais tranqüilo. Agora sim eu estava pronta!
Ah égua! Não é que veio uma criança virada! Dessas que quando choram inflam as veias do pescoço e que não pedem atenção. Exigem.
Tive que reaprender a ser mãe.
E eu devo ter foto dele sendo amamentado, mas, com certeza não tenho foto das vezes que precisei segurar ele no colo pra conseguir fazer cocô.
E eu fiquei maluca muitas vezes. E vocês me tiraram a sanidade, muitas outras. Ou seja, só sobrou uma mulher enlouquecida nessa casa.
Já teve dia de eu achar que fracassei.
Já chorei no terapeuta, no colo da amiga, na sala do chefe, na fila do pão e na sua frente.
Eu já quis morrer e já quis matar por você. Eu já pensei em desistir. Em fugir. Em deixar você fazer o que quiser.
Eu já pensei que você tem vergonha. Já pensei que eu não seria a sua escolha. Já pensei que eu não nasci pra essas coisas de ser mãe.
Mas, hoje eu sei que maternidade não tem nada a ver com a foto do bebê fofinho e sorridente da propaganda que nos homenageia.
Maternidade tem a ver com oferecer o que dá pra oferecer, do jeito que dá pra oferecer.
Maternidade tem a ver com tomar banho de porta aberta por que a qualquer tempo, alguém vai querer entrar.
Maternidade tem a ver com ver os filhos crescerem e você ficar gritando “Olha aqui o que eu fiz? Que legal né?” Pra ver se pelo menos uma vez, vocês tem orgulho de mim.

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